7 de janeiro de 2012

roda de samba

Cada lugar é infinito. Cada pessoa é infinita. O indefinido é um indinfinito.

A coerência social é um esforço artificial do ser humano que pode levá-lo a um dos sentimentos mais perigosos para a sua evolução: a incoerência.

3 de janeiro de 2012

c(u)or(e)

Família: "Lori, você já comeu coraçãozinho?"
L.: "Só de homem."

26 de dezembro de 2011

ar testa

a ocupação mata o artista
o meu está a morrer de amores

4 de dezembro de 2011

desver

Há a natureza e há o homem. Hoje é assim. Hoje é "bruto", então. Caminho por grutas pré-históricas e a cada passo surgem palavras que complementam a pergunta: como é que nos desviámos tanto? Que desvio sedutor se cruzou no caminho? E porquê? Quem o construiu?

2 de dezembro de 2011

sóL

estar só é uma febre.
não se gosta,
foge-se
não é bem visto,
sente-se, custa
passa...
intensa. intenso.
aprende-se.
o corpo muda,
a mente muda com o corpo
a alma pe(r)de a febre e muda-se toda
aprende-se que se aprendeu

é enorme
é melhor
mais forte
o mundo fica nosso
à nossa maneira o movemos
com mais sentido(s) o sorvemos 
movemo-nos com ele
deixamo-nos sorver melhor

intensa, febre. intenso, estar só. enorme.

Estar só é ter o mundo todo só para nós. Num egoísmo que só cria um mundo melhor, que é, portanto, altruísta. É que só assim, em boa solidão, o vemos bem, sem corações alheios... Só assim o agarramos, tendo-o como ele é-segundo-o-que-somos, ou seja, segundo a real verdade: a de cada um. 
Sem influência de informações que fluem formando forros nas frontes de que faz falta fugir para nos fazermos ao firmamento. 
Estar só é entrar no mundo a pés juntos e nem pode haver outra maneira, que não a pés juntos, de entrar.

27 de novembro de 2011

diz sol ver se

O sol é belo também quando não se vê. Sempre. Profundamente. É-o nas nuvens, nos corpos, antes de acordar, depois de adormecer. É belo porque não nos existe sempre. É belo porque se estende e se prolonga pela matéria fazendo-a brilhar. Porque, e talvez acima de tudo, dá incondicionalmente. Se a matéria é bela é porque o sol o permite. É uma comunhão que não esqueço, que ninguém pode esquecer, tanto em relação ao sol, como em relação aos nossos mundos, físicos e afins. A beleza não está no que vemos quando se olha. Ela encontra-se quando, e onde, se Vê. Aí sim é infinito e constante, como é a verdadeira beleza. Não vale muito a pena procurar "belezas" que não esta. Até porque também nós podemos e devemos ser belos assim.

18 de novembro de 2011

Casse-Tête Personnel

Lorina de Carvalho Ventura

Atiro-me ao infinito quando penso em descrever-me, e sempre desisto (suponho que seja assim com todos). No entanto, olho para o meu nome completo (sendo 'meu' e 'completo' palavras que dizem muito desde já), e vejo que ele traz em si o que posso ser, infinitamente.

Basta brincar aos parêntesis e às metáforas como se brinca aos pais e às mães.
Confuso, talvez. Eu, portanto.
Divirtam-se.

12 de novembro de 2011

sur - realismo

as minhas raízes, o meu sangue, o que amo
os meus, as minhas, o nosso
o que deixei, o que não quis trazer
as ruas que me conhecem os passos
os dedos que me têm os cabelos
os lábios que me chamam o abraço
as cores dos olhos que me querem
o calor desumano
as humanas mentes
tu,
tu,
e tu, 
tum-tum, tum-tum, tum-tum

o que amo é um quadro
ao longe vejo-o tão melhor

10 de novembro de 2011

chil(l)e

acho que os prédios de Santiago não crescerão mais: de que forma se veriam montanhas no fundo de cada rua?

9 de novembro de 2011

elevarte

não tens de, nem deves, procurar os calcanhares de ninguém: eleva os teus e beijarás a lua

5 de novembro de 2011

se-credo

Todos os segredos são bons segredos. Óptimos. Não conheci ainda um segredo que não o fosse. Todos os segredos carregam em si pelo menos 3 das 7 maravilhas da vida: sabedoria, mistério e sensualidade. Saber algo que a maioria não sabe é ter em si um poder subversivo, belo, intenso. Segredá-lo em público também. Por isso, a mestria das regras, do dever e não dever, assumiu que não se deve nunca "dizer segredos à frente dos outros" ("é feio"), tal como não se deve usar decotes.

Contar um segredo ou ouvir um segredo deve ser dos actos mais excitantes que a socialização humana tem para dar: os corpos aproximam-se, exaltam-se com o interdito, o coração acelera e expressa-se nos lábios em ligeiro sorriso - mesmo antes de se saber - os ombros encostam-se, os lábios procuram a melhor orelha e, devagarinho, doucement, para ninguém ouvir, soltam as palavras-mistério, que "não podes contar a ninguém" num tom de voz que se assemelha aos que ouvimos nas conversas entre Gainsbourg e Bardot...

Sensualidade suprema, soberba.

Não conheci ainda ninguém que não gostasse de segredos. Nas mãos da sociedade, os segredos são como que Mulheres que todos desdenham, mas todos lhes seguem os passos que nem um bom cãozinho. É incrível. É incrível a relação do mundo com este doce-proibido. O segredo é vício e, como todo o bom vício, é imoral e(i) mortal, sendo esta mais uma razão para a sua extrema sensualidade. Todos desejam saber e ninguém pode, ou devia: intenso. Todo e qualquer um, tem segredos profundos que o mundo, se soubesse florescia-se todo, e isso é uma delícia. Andar de metro e pensar que naquela carruagem dava para fazer uma competição de quem guarda os segredos mais rubros: delícia. As horas de ponta seriam um prazer.

A vida secreta tem muito mais piada.

Todos os segredos são bons segredos porque mostram o ser humano como ele é, na sua integridade ou ausência dela, no seu egoísmo ou altruísmo, na sua intensidade ou vida cinza. São bons porque fazem vir à superfície a curiosidade pura, sentimento que faz o mundo girar, crescer. São bons porque mandam nações abaixo, fazem crescer amores eternos e nunca erguem nações que não o são nem destroem amores verdadeiros. São bons porque são um encanto palpitante desde o colégio até à tarde de jogo de cartas com os amigos de há 50 anos. Desde debaixo dos lençóis à conversa inesperada com um desconhecido em língua estrangeira. Desde os meus lábios à tua orelha. "Shh... Não contes a ninguém..."

2 de novembro de 2011

seguindo-se

para ti, sem te tocar, sem beijar, sem amar como amo e não sabes. sem ver como vejo e não vês. sem beijar as mãos que leio, sem morder os olhos que desejo. Homem meu, luz minha, pensamento errante, incessante. ser que fascina. vejo-te todos os dias, ainda. descubro-te a pele, destapo-a, como-a, faço dela minha. sorvo-te o cheiro para esquecer. seguro-te pela alma e levo-te para casa, para te adormecer. um dia levo-te para o mundo, ou o mundo leva-nos ao colo. um dia ficamos numa mesa de vinho lá no topo, naquele lugar que nos pertence. um dia conto-te tudo isto ao ouvido e fujo a sete pés.

31 de outubro de 2011

mandamentes

há que deixar o mais ou menos
e ainda mais o menos
há que amar mais vezes por dia

que me queres-me? - brincar aos parêntesis


que procuras em mim?
apareces, dás, sei que levas...
mas que escondes?
planícies de jade e marfim,
ou lama das trevas?
vejo-te as mãos, herança de condes,
mas isso nada é no fim.
quando a minha mão à tua levas
sinto frescuras de diferentes frondes
e sempre pergunto que procuras em mim.

29 de outubro de 2011

12 metros e uma ida

Tenho um grave problema com medos em geral: não os suporto.

27 de outubro de 2011

e o vidro linha ténue

o frio lá fora,
o vento violento,
as cores que deixam de o ser a cada segundo que passa.
o calor cá dentro,
as gatas enroscadas no silêncio,
o meu nariz pelos seus pêlos adentro até às suas barrigas divinais...
vou partir...

26 de outubro de 2011

Organização de Nós Unidos

Crime contra a Humanidade: Acordar a meio de um sonho.

23 de outubro de 2011

três belas num precipício

Era de noite. Eram três belas jovens num precipício. Tinham idade de finalmente começar a aprender com a vida e era sobre isso que conspiravam: sobre a vida, sobre o amor que ensina, sobre a lua que comanda em festas nas costas. Encontravam-se sentadas em triângulo profano e dele saiam todas as ideias que uma criança pode ter quando descobre o amor. Saiam todas as contradições que as mulheres jovens podem conter e uma dose extra. Saia também magia de maduras feiticeiras, daquela que faz cair as estrelas; e elas desejavam cada estrela que caia, tanto pelo querer em si como pelos desejos que lhes saiam pelos lábios. Era um triângulo muito poderoso: três ângulos de jovens muito sábias do coração e profundamente leigas nos homens e na matéria.




Estas jovens são diferentes, sei bem. Estas senhoras quase menores de idade beijam a lua e a lua beija de volta. As suas confissões dão músicas de acordar, nunca de embalar, e as suas mãos viram as cidades do avesso. Por isso fica impossível que todos aguentem a presença destas "belas-donas". Nem todos(as) têm no corpo um universo que sustente a grandeza de uma Mulher, e por isso estas Mulheres-flor tem algumas "pedras no caminho" mas "guardam-nas todas" e contam-nas às gargalhadas (já começaram a construir, não castelos, mas palácios). São três ângulos de beleza extrema, cada uma oposta das outras, três estórias que são história, três vibrações díspares que, ao se terem reunido num precipício, deixam o efeito borboleta um bocado confuso.




Eram flores perdidas no encontro. Era um encontro que mais parecia um reencontro. Quem via ao longe não se aproximava, ou porque se afastava como o homem foge do que importa, ou porque era apavorante para a maioria, era um visceral precipício para o vertiginoso mar. Este triângulo não o temia, aliás, pouco temem estas senhoras: Túlipa Branca teme o não-amor, Gerbera o não-saber e Papoila o temer. Todo o resto é um precipício onde elas dançam, uivam, gritam e fazem amor...




Túlipa Branca é a bela jovem que caminha onde a luz toca e não dá por isso. Todos lhe elogiam tudo e todos sabem que se ela soubesse o mundo era tão mais feliz. Ela não o "sabe, nem sonha", mas quando Túlipa dorme, o mundo abranda para olhá-la. Quando esta acorda, muitas vezes em melancolia, ela sabe que não é no espelho que se encontra a beleza mas esquece-se que no mundo, há muitos que não ligam ao espelho e abrandam para olhá-la da mesma forma ou mesmo com maior admiração. Túlipa lembra o mundo o quão extrema uma beleza de mulher pode ser e o quão violenta também. Ela é sensível como a flor que lhe deu o nome e como um animal que fere para se defender. (Uma beleza sensível destas, infelizmente, tem de se defender muitas vezes...) Ela espreita o mar sempre que pode e agradece a sua existência. Túlipa não sabe ainda que também o mar se verga e agradece de volta perante uma alma assim... Mas saberá.




Gerbera é a bela jovem que recebe o que dá e dá o que recebe. É cega no seu amor e isso é uma dádiva. Para além de um semblante que estas épocas já não conhecem, tem também uma pureza que o presente não conhece. Gerbera é de uma beleza real, quando ela for grande vai governar o mundo, por isso até lá deve aprender tudo e todos. Esta coroa em flor sabe muito, até que "nada sabe", então, mesmo quando tropeça no caminho mantêm-se na estrada, consistentemente. Às vezes acumula feridas, outras vezes pessoas que não são boas de se acumular, mas, desde que a conheço, a sua coroa tem-se erguido, juntamente com a sua paz, o que afasta muitas pedras... Ela é da cor do trigo e traz a força da terra nos dedos. Às vezes ela fala comigo e eu não oiço, porque os olhos falam também, então fico a escutar os olhos, profundos faladores do que lhe vai no corpo e na alma. Aprendo muito assim, a escutá-la. Gerbera não sabe ainda que nasceu para ser maior que os homens... Mas saberá.




Papoila é a bela jovem "pé-de-vento" (in Artur Carvalho, Avô), tanto pelo caos que instala onde passa, como pela maneira como se desloca no mundo, etérea, inalcançável, desassogada. Tentar agarrar esta flor de ar é dar-se mal com a vida: nem ela se segura. Esta jovem-turbilhão tem em si todo o caos e amor que o mundo pode ter e isso fá-la pegar no medo e seduzi-lo, todos os dias, com prazer. Ela é um despertar para a irrealidade, para o incompreensível, para nós mesmos, e por isso teme profundamente temer: o medo atrasa e ela não é pontual de natureza. No meio de todo este estado-de-sítio extra-feminino reside a Verdade, pelo menos a dela. O mundo tem acesso a este ser na sua forma mais pura e sem medos, o que para muitos é assustador. Então Papoila, para facilitar, só deixa entrar quem traz o Universo no peito, o resto fica à porta, espreita pela janela e ilude-se. Papoila não sabe ainda se no meio disto tudo, o mundo a ama de volta... Mas saberá.




Era um abismo de beleza, aquele precipício. De lá saiam danças pagãs, confissões, gargalhadas, feitiços, gritos, estórias do além, estórias do aquém, beijos para a lua que já se deitava para as ouvir melhor... Mas tudo tem uma ampola do tempo que Papoila partiu, tudo tem uma consciência do efémero que Gerbera conheceu, tudo tem um final feliz que Túlipa desejou, e por isto, por aquilo, pelo tanto que estas jovens têm ainda para oferecer, o mundo chamou-as de volta em louca saudade. Elas desapareceram por entre as ervas, o precipício caiu de si mesmo abaixo.

18 de outubro de 2011

maninfestado

A todos os verdadeiros hipsters um grande perdão, podem ir em paz.

Mal posso esperar pela fase de insultar as pessoas com um "seu surrealista", ou "olha-me aquele neo-romântico". Maravilha.

17 de outubro de 2011

no baloiço

Ela diz: "A visão portuguesa é tão bruta às vezes... Não poderiamos ter arranjado melhores palavras que desabrochar e desflorar?"

Ele, no seu colo: "Possível cerne do problema: ter começado por espalhar, mundo fora e à força, uma língua tão maior que nós."